segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pessoas

E dizia a todos que me quisessem escutar, "sem dúvida alguma meu maior tesouro são as pessoas". Nada seria do dinheiro que tenho ou terei se não houvesse com quem compartilhá-lo, de nada serviriam os lugares que conheci se não tivesse com quem dividi-los, de nada serviriam as memórias se me fossem únicas e exclusivas. Meu tesouro reside naquilo que de mais puro me conquistou, no que de mais puro pude conquistar. E não o digo por sentimentalismos, ainda que esses sejam impossíveis de ficar de fato escusos, mas por verdadeiramente achar que de nada me serviria o mundo se não fossem as pessoas.
Pessoas que colorem com diversidade e unem com ideias, pessoas que passam pelo mesmo martírio delicioso de exercer a humanidade. Pessoas que nem param pra pensar na delicia de serem pessoas. É por elas que a vida me tem sentido.
E repito, meu maior tesouro são as pessoas. E o que delas advém. O que mais me é valoroso são os abraços e sorrisos que troquei pelo caminho, as palavras que me cativaram, os rostos que me serviram de norte e as mãos que me serviram de âncora. O que me é raro e precioso são os beijos que troquei, os amigos e os amores a quem me dei e as risadas que me arrancaram. O que de fato me move são aqueles que me enchem de esperança e de amor.
De nada seria se não fossem as pessoas.

domingo, 28 de setembro de 2014

Dedicado

Era aquilo, Ela não sabia muito bem o que era que faltava, mas quando chegou ela pode declarar com toda a certeza que cabia dentro de si, certeza essa que de fato não era muito grande, mas que por algum motivo havia se tornado absurdamente maior. Mas aquilo? Ou ele? Definitivamente ele. Mas o que ele trouxe consigo, aquilo sim, era o que lhe faltava. Como é possível? Como se anda toda uma vida com uma parte faltante, para encontrá-la em outra pessoa? E como, meu Deus, pode dar tão certo? 
Era engraçado pensar que há pouco tempo andava só, e não sabia que assim estava. Engraçado pensar que houve um tempo em que seus pensamentos não eram dominados por um único tópico; que todos os seus desejos e ansiedades, todos os seus sentimentos mais profundos não tinham dono. Era engraçado lembrar que há algum tempo atrás ela nem mesmo acreditava que tudo aquilo existisse, que era tudo mais uma fantasia infantil que há muito havia se livrado.
Mas então ele apareceu, não foi montado em um cavalo branco, afinal ela já sabia que não o seria. Não foi em um momento tranquilo e não deu tudo certo a principio; na verdade algumas coisas davam errado até hoje, mas isso fazia parte. Surgiu no momento oportuno e arrebatou seu mundo, fazendo dele o que bem entendia, e ela agradecia aos céus por suas boas intenções. Sabia que tinha sorte, e que sorte.
Se divertia na cumplicidade que haviam adquirido; por várias vezes se surpreenderam pensando juntos, ela gostava de chamar aquilo de sintonia. Não sabia se essa palavra explicava tudo, mas era um bom começo. A forma com que se olhavam, como trocavam sensações, como faziam o impossivel para concretizar a vontade perene de estarem juntos. Talvez aquilo explicasse o porque de mesmo por vezes diferentes, se completarem de uma forma tão intensa.
Ela o amava. Completamente e imensamente, e sabia que ele a amava também, E isso por si só já lhe bastava, por isso sempre se sentia agraciada em ter muito mais. Eles faziam planos e visualizavam um futuro juntos. E ainda amam. Ainda fazem. Ainda vêem. Ainda se sentem completos, ainda se sentem necessários, ainda e cada vez mais se apaixonam todo dia.Por vezes se acreditava romântica, e em algum lugar do passado isso a incomodaria; mas afinal, os tempos mudam.
No fim do dia sempre retornava as mesmas perguntas e as respostas acabavam por ser sempre as mesmas, "não sei, mas que bom que está aqui e ainda bem que não vai embora".

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sweet Dreams

Que seus sonhos sejam doces. Doces. Do-ces. Não, não se conformava. Ora, mas porque doces? O que de doce tem que ter um sonho? Ninguém lhe deseja "uma doce vida", mas sim uma doce efemeridade. Uma doce descarga de impulsos elétricos aleatórios que se combinam formando imagens que podem ou não ter significado. Com o perdão de Freud, que não interferirá nos meus prospectos. Ou ainda com o aval de Freud, porque não? Uma doce realização de seus desejos recalcados infantis, que a vinda de seus maiores segredos à consciência lhe seja aprazível. Não, não fazia sentido. Era como dizer que a sutileza da vida se encontra em um mundo paralelo a real existência, mas porque? Porque se deseja um "bom dia" e um "doce sonho"? Em que lhe dizia respeito algo doce era mais interessante e agradável do que algo somente "bom", na verdade bom sempre soou com uma forma educada de se dizer "regular".
Ou será que o sentido daquilo tudo era desejar que em sonhos se encontrasse o que não se acha acordado? Será que estão tão desacreditados da vida, que não acreditam mais que essa possa ser doce? Um bando de tolos, concluiu, a vida é doce, mesmo em seus pedacinhos amargos. Não acreditava que isso fizesse sentido, e na verdade não se importava. Passou a desejar a todos uma "boa noite sono" e uma "doce existência".

segunda-feira, 30 de junho de 2014

L'aventura

Percorria todo o seu corpo; da ponta dos dedos dos pés, caminhando por toda a espinha, até chegar a raiz do seu último fio de cabelo. Era sublime, algo que nunca havia sentido antes, em todos os seus anos de experiência que não eram assim tão poucos. Afinal já se podia notar a maturidade em seu olhar, a idade teimava em revelar-se de forma sutil e subjetiva, mas ela percebia e brigava tentando esconder aqueles anos de vivência pura e completa. Já não tinha mais a ingenuidade da infância ou o espirito intrépido de adolescente, guardava com saudade as memórias dessas épocas. Mas ainda assim as novas experiências ainda apareciam. Havia conquistado a serenidade e experiência que só os anos corridos podem fornecer, e regozijava-se com isso; afinal encontrava-se em lugar extremamente confortável de sua existência.
Não era uma velha senhora, pois não, tinha o alto de seus quase quarenta anos, mas julgava-se tão vivida a ponto de quase esquecer que lhe eram possíveis novas e intensas emoções, sensações e até sentimentos. Então se surpreendia um pouco ao se deparar com elas; uma surpresa quase infantil que a divertia e entretinha por algum tempo. Afinal coisas novas não duram tempo o suficiente para entreter-nos por muito tempo, não é mesmo? Em um curto período de tempo, o que era novo agora é conhecido; o interessante se torna familiar e perde um pouco de seu brilho. Mas ela sabia que dessa vez não seria assim. Sabia que cada dia seria um novo dia, que cada experiência seria nova, e que cada segundo que se passasse seria um desafio. Mas valeria a pena. Tudo por ele.
Ele que era a pessoa que mais amava nesse mundo, não que ela não amasse muita gente, mas ele era especial. Havia um brilho em seus olhos que diziam que não se poderia amar nada, nem ninguém, quanto se ama ele. E era impossível não se perder no brilho daqueles olhos. Havia algo nele de sobrenatural, e de fato não há como se explicar. Tentara. Brevemente, longamente, com músicas ou palavras, com filmes ou imagens. Buscava vorazmente em sua memória qualquer coisa que chegasse próxima de explicar aquele amor. Nada era o suficiente.
Então resolveu desapegar-se de definições. Aceitar os desafios. Os sentimentos. Resolveu amar largamente e sem medidas. Aceitou aquele pequeno ser, que pela primeira vez segurava nos braços, como parte de si. Como a aventura mais desafiadora de sua vida, mas que ela sabia que seria a melhor, porque não tinha como ser diferente, com ele. Aquele que em nove meses e um dia, conquistou seu coração.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

*

Existe algo de mágico na noite da cidade. Talvez seja o brilho desconexo dos faróis dos automóveis e das luzes das casas e edifícios, talvez a movimentação de pessoas que já não mais tem tanta pressa ou talvez o burburinho que provém de um bar ali da esquina. Só sei que me encanta. A beleza inexata das cores já não tão vibrantes pela ausência de iluminação, desprende certa calma. A temperatura mais amena, devido a ausência do sol, e a lua que por ela vem escoltada; o chão de estrelas que ainda não absolutamente visível, dedica um pouco de poesia a  cada canto cinza e esquecido de metrópole.
A noite que embala o sono de tantos, que possibilita um tipo de solidão que te põe em contato consigo mesmo, que liberta seus mais obscuros sonhos e desejos. A noite na cidade é aquela que oferece redenção aqueles que anseiam somente por um novo recomeço.

 Carolina Ribas

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Sobre o beijo gay


Posso dizer que estou mais feliz, sem medo. Estou mais feliz não pelo fato que, finalmente, o amor homossexual foi retratado como algo absolutamente normal num veículo midiático tão poderoso; é bom sim, mas não é esse o motivo do meu contentamento. Estou feliz porque vejo esperança, vejo o avanço, vejo o distanciamento dessa sociedade tão doente em que vivemos. Estou feliz porque independente do sexo, do credo ou da cor, o amor vem sendo celebrado. Estou feliz porque a maioria das pessoas com quem convivo, apoia o amor em todas as suas formas. Feliz porque uma parte daqueles que não concordam muito com isso, guardam suas opiniões para si, porque entendem que é melhor calar-se a semear contra o sentimento alheio.
O amor vem irrompendo no coração das pessoas, vem quebrando preconceitos e paradigmas, vem questionando suas certezas; e o que se deve fazer? Deixa ele entrar. Deixa explodir. Porque se tem alguma coisa nesse mundo mais bonita e mais certa que amar, eu ainda não descobri. 




Carolina Ribas