sexta-feira, 17 de julho de 2015

Femimimismo

Sim, eu sou feminista. Digo isso antes que o título do texto me faça ser mal interpretada.
Eu preciso do feminismo,
Eu preciso do feminismo para que as crianças de hoje e de amanhã sejam educadas diferentemente das de ontem. Assim, no futuro, entenderão o quanto é desconfortável e muitas vezes coercitivo quando um desconhecido invade o seu espaço, proferindo qualquer calão de palavras. Assim, no futuro, entenderão que o 'não' da menina não é charme, e mesmo que seja, deve ser respeitado. Assim, no futuro, será sabido que importante é ser gentil com todos, não cavalheiro com a mulher em que está interessado. Assim, no futuro, saberá que apesar de qualquer gentileza aceita, ninguém tem a obrigação de lhe dar nada em retorno. Assim, no futuro, uma mulher não será desvalorizada pelo número de parceiros(as) que já teve ou na duração de seus relacionamentos. Assim, no futuro, entenderão que se aproveitar da vulnerabilidade de qualquer pessoa, não importa o motivo, é cruel e em muitos casos crime. Assim, no futuro, nunca mais ouvirei proferirem a uma menina "você precisa se dar ao respeito", e sim a todas as crianças que é preciso respeitar o próximo.
Eu preciso do feminismo para que essa geração entre em consonância. Porque pais já esperam de suas filhas boas alunas, profissionais de sucesso, independentes. Mas esperam que sua nora passe, cozinhe, cuide de seu filho e de seus netos (e esperam que elas tenham netos). Porque mães gostam que suas filhas usem o que as faça felizes, mas que suas noras sejam recatadas.
Eu preciso do feminismo para me empoderar. Para saber que eu posso usar a roupa curta que eu quiser, que isso não me faz ter menos valores do que ninguém, nem garante a ninguém o direito de encostar em mim. Para saber que eu não preciso me maquiar se eu não quiser, porque apesar do que a mídia, o meu chefe e aquela tia mala dizem, eu sou linda de qualquer jeito. Para saber que o meu corpo é meu, e eu não preciso respeitar nenhuma imposição estética. Para saber que o meu corpo é meu, e ninguém tem direito de tocar nele sem convite, sob NENHUMA circunstância. Que eu não preciso 'ser feminina' ou ter 'roupas e cabelos e modos de menina' para ser aceita ou desejada. Para saber que meu objetivo na vida não é encontrar um homem e me apaixonar. Ou que meu objetivo na vida é encontrar um homem e me apaixonar, o que eu decidir. Mas para que eu saiba que eu não preciso me sujeitar à um relacionamento abusivo, que a culpa não é minha. Para que eu saiba que não é problema querer ser solteira ou ter o desejo absurdo de me casar. Mas que eu saiba que esses desejos partem de mim. Para que eu possa querer sexo sem ser taxada de meretriz ou que eu possa não querer sexo sem ser taxada de frígida.Para que eu tenha o direito de ser lixeira, presidente, dona de casa, empresária ou o que eu quiser. Para que eu saiba que ninguém tem o direito de decidir por mim. Porque ao contrário do que me disseram, eu não sou o sexo frágil.
Eu preciso do feminismo porque ainda é enorme os casos de abuso contra mulheres. Abuso físico, sexual, intelectual e psicológico. Abuso que parte de todos os lados, que as vezes ocorre dentro da sua casa. Preciso que entendam meu medo em andar sozinha a noite desacompanhada. Preciso que entendam que meu medo em ser assaltada não são meus bens, mas minha integridade física. Preciso que entendam o pavor que tenho em homens insistentes, pelo medo de se tornarem violentos e me tomarem a força. Preciso que se importem e que digam que se importam. Preciso saber que existem pessoas que passam pelas mesmas coisas e que sobrevivem, e acima disso, que tem feito o possível pra mudar.
Eu preciso do feminismo para não cair no lugar comum. Para não achar que a mulher bem cuidada e de boa aparência é burra e fútil e que a mulher despenteada e estudiosa é triste e insatisfeita. Para não acreditar quando me disserem que a solteira de 60 anos é menos feliz e realizada do que a casada com filhos e netos.
Eu preciso do feminismo. Eu não estou me fazendo de vítima, eu estou pronta pra lutar. Eu não odeio os homens, eu odeio o medo, a insegurança e a opressão que alguns deles me submetem. Eu não quero benefícios, nem preciso deles, quero que meus direitos sejam garantidos e minha liberdade respeitada, assim como minha individualidade.
Eu não acho que isso seja mimimi. Eu definitivamente não acho que isso seja nazismo. Pra mim o feminismo traz paz. A paz que parte da revolução e da mudança, a tranquilidade de ver que não estou sozinha. A felicidade do meu desejo ser compartilhado, o desejo de nunca ter que falar pra minha filha "não andar de short no calor, porque sabe como é" como já ouvi. E eu não acho que você tem que concordar comigo, mas eu tenho certeza que você tem que me respeitar.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

João da Bola de Neve

Existiu uma vez o Joãozinho
Joãozinho esse de cinco anos
Joãozinho tinha problemas na escola, de indisciplina
Joãozinho foi expulso da escola
Joãozinho não tinha mais onde estudar
Joãozinho foi tirado da família, da qual sentiu muita falta
Joãozinho foi pro interior porque sem estudo não dá.

João não perdoa sua mãe por tê-lo abandonado
João continua com seus problemas de indisciplina
João não quer saber de escola
Os avós de João, com quem ele mora, não tem energia para cuidar dele
João conheceu o aviãozinho da cidade
João viciou em crack
João matou um pra comprar crack
João foi preso
João aprendeu mais sobre as manhas do tráfico
João virou traficante
João foi morto no morro.

Fizeram uma biografia de João, o maior traficante que já se viu
Analisando
E analisando
Descobriram o TDAH de João que seria controlado por remédios
Se tivesse sido diagnosticado
Se tivesse dinheiro pra pagar a consulta
Se a consulta no SUS não demorasse 6 meses
Se tivesse sido tratado
Se tivesse ficado na escola
Se...

Sobre maioridade, manobras, professores e bolsa família

A necessidade de se precaver do mundo chegou ao ponto de renegar a humanidade do outro. O sistema carcerário é  considerado unicamente punitivo, o que por consequência torna infrator impassível de correção e reinserção; o que pela lógica requer que ele seja detido o resto da vida a fim de não reincidir no crime, pelo menos na grande maioria dos casos.
O ser humano não é irrecuperável, o ser humano não é descartável, seres humanos dificilmente são "essencialmente maus". O pouco de envolvimento que tive com psicologia me diz que todo comportamento é aprendido e fruto do meio, e se é aprendido pode ser reaprendido. Mas e o meio? Você prende o adolescente por 5, 10 anos, 30 que sejam, em uma penitenciária, o devolve pra mesma situação de antes e quer que o resultado seja diferente? Quer que ele mude de comportamento sendo que a única coisa que o ofereceram durante esse tempo foi a convivência com pessoas com comportamentos semelhantes?
"Ah não, mas elas já sabem o que fazem" provavelmente, e quem foi que ensinou? Foi a escola de qualidade, o ambiente saudável ou a família bem estruturada? E "saber" é relativo, com seus 16 anos a sua capacidade cognitiva não alcançou a maturidade ainda, e maturidade nesse caso não é algo relativo e ponderável, é sobre o seu desenvolvimento físico. E 16 anos baseado em que? Na capacidade física de cometer crimes? Duas crianças de 10 anos mataram um bebê de 2 anos. Precisam de uma penitenciária ou de uma instituição reeducadora? São causas perdidas? Pensem que casos onde as pessoas sentem prazer em matar são poucos, a maioria dos casos de crimes hediondos é fruto de um comportamento desviante explicado se feita uma análise da história de vida.
"Direitos humanos pra humanos direitos", amigo onde você tava quando essa CRIANÇA, sim eu disse criança, foi privada de um ensino de qualidade, de perspectiva de futuro e de uma família estruturada? Onde estava você quando os pais dele passaram pela mesma situação? Essa é uma bandeira que as pessoas tem levantado pouco.
O sistema carcerário não funciona, e ao invés de modificar isso estamos cogitando submeter nossos jovens, e cada vez mais jovens, a ele.
Uma amiga disse e eu fiquei chocada ao perceber o quanto era verdade, aqueles que são habilitados a modificar a raiz dessa situação, são os profissionais desvalorizados. São aqueles que são ridicularizados por suas escolhas profissionais. Os que são desencorajados perante suas escolhas profissionais. Aqueles que ganham menos e são humilhados no trabalho. São os professores, os pedagogos, os psicólogos. São aqueles que buscam melhor qualidade da educação e uma qualidade digna para sua profissão e são respondidos com violência policial.
Enquanto isso, aqueles que elegemos ao quase topo da cadeia alimentar, a parcela que ganha muito para pensar por muitos, aqueles que são os atores da mudança substancial, subvertem a luz do dia a constituição que deveriam fazer valer. Desrespeitam a democracia e ainda são aplaudidos por alguns... "Já não era sem tempo", algumas vozes dizem.
Afinal de contas, obviamente não vai ser isso que vai acabar com a violência, sabemos que isso não é a solução... mas no momento é o que temos, é o que precisamos para que as pessoas parem de morrer... não é mesmo? Disse aquele que é contrário ao bolsa família.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

About camp

O camp é aquele momento de renovação, onde você reencontra aquilo que foi soterrado pelos problemas cotidianos e pela rotina. Aquilo que somente aquelas pessoas mergulhadas naquele sentimento e envolvidas de forma tão íntima naquela energia podem proporcionar. E desde que me tornei counselor é o final de semana em que você tem o prazer de verificar que seu trabalho valeu a pena.
Esse foi meu terceiro camp, mas foi o que eu escolhi o meu momento preferido. Afinal, quando um final de semanas deixa tanta marcas, fica difícil escolher um momento pra chamar de seu. Esse ano eu contemplei. Durante um momento, em que todos os "nossos" meninos estavam vendados, eu os contemplei. Contemplei seu crescimento, seu sentimento, sua essência e sua veracidade. Contemplei os monitores que ali estavam, dando e recebendo carinho, assumindo seu amor e sua vulnerabilidade; constatando com o orgulho o trabalho que tinham feito e as vidas que tinham afetado e que os afetaram. Eu vi participantes de mãos dadas e monitores abraçados em uma só linha. Não existiam diferenças, nem brigas, nem problemas; naquele momento a única coisa que existia eramos nós. Nós em nossos laços, nossa plenitude e nosso sincero amor. Não existia divisão, só pertencimento.
Esse momento é meu preferido. O momento em que nós somos responsáveis simplesmente em semear o amor, em fazer do nosso próximo parte de nós mesmos. Eu amo o camp, em todos os seus momentos, mas acho que nem dentro da fogueira sou capaz de sentir tanto calor quanto naquele momento. Aquele momento singular em que constatamos que, unidos pela vontade de crescer, somos um só.
Lembro que em meio a contemplação eu pensei nessas exatas palavras "Eu nunca tive tanto orgulho de nada da minha vida, quanto o que eu sinto de vocês". Nunca tive um orgulho maior do que pertencer aquele grupo sensacional de pessoas, de poder chamá-los de família. De poder reconhecer eles em mim e um pouco de mim neles. De constatar que eles me elevam sempre e que eu contribuo de algum jeito pra elevação deles. Como disse Lorena, "naquele momento, eu fui infinita".
E como disse Jones, "live everyday as a camp day", e garanto que o mundo vai sentir um pouco disso.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pessoas

E dizia a todos que me quisessem escutar, "sem dúvida alguma meu maior tesouro são as pessoas". Nada seria do dinheiro que tenho ou terei se não houvesse com quem compartilhá-lo, de nada serviriam os lugares que conheci se não tivesse com quem dividi-los, de nada serviriam as memórias se me fossem únicas e exclusivas. Meu tesouro reside naquilo que de mais puro me conquistou, no que de mais puro pude conquistar. E não o digo por sentimentalismos, ainda que esses sejam impossíveis de ficar de fato escusos, mas por verdadeiramente achar que de nada me serviria o mundo se não fossem as pessoas.
Pessoas que colorem com diversidade e unem com ideias, pessoas que passam pelo mesmo martírio delicioso de exercer a humanidade. Pessoas que nem param pra pensar na delicia de serem pessoas. É por elas que a vida me tem sentido.
E repito, meu maior tesouro são as pessoas. E o que delas advém. O que mais me é valoroso são os abraços e sorrisos que troquei pelo caminho, as palavras que me cativaram, os rostos que me serviram de norte e as mãos que me serviram de âncora. O que me é raro e precioso são os beijos que troquei, os amigos e os amores a quem me dei e as risadas que me arrancaram. O que de fato me move são aqueles que me enchem de esperança e de amor.
De nada seria se não fossem as pessoas.

domingo, 28 de setembro de 2014

Dedicado

Era aquilo, Ela não sabia muito bem o que era que faltava, mas quando chegou ela pode declarar com toda a certeza que cabia dentro de si, certeza essa que de fato não era muito grande, mas que por algum motivo havia se tornado absurdamente maior. Mas aquilo? Ou ele? Definitivamente ele. Mas o que ele trouxe consigo, aquilo sim, era o que lhe faltava. Como é possível? Como se anda toda uma vida com uma parte faltante, para encontrá-la em outra pessoa? E como, meu Deus, pode dar tão certo? 
Era engraçado pensar que há pouco tempo andava só, e não sabia que assim estava. Engraçado pensar que houve um tempo em que seus pensamentos não eram dominados por um único tópico; que todos os seus desejos e ansiedades, todos os seus sentimentos mais profundos não tinham dono. Era engraçado lembrar que há algum tempo atrás ela nem mesmo acreditava que tudo aquilo existisse, que era tudo mais uma fantasia infantil que há muito havia se livrado.
Mas então ele apareceu, não foi montado em um cavalo branco, afinal ela já sabia que não o seria. Não foi em um momento tranquilo e não deu tudo certo a principio; na verdade algumas coisas davam errado até hoje, mas isso fazia parte. Surgiu no momento oportuno e arrebatou seu mundo, fazendo dele o que bem entendia, e ela agradecia aos céus por suas boas intenções. Sabia que tinha sorte, e que sorte.
Se divertia na cumplicidade que haviam adquirido; por várias vezes se surpreenderam pensando juntos, ela gostava de chamar aquilo de sintonia. Não sabia se essa palavra explicava tudo, mas era um bom começo. A forma com que se olhavam, como trocavam sensações, como faziam o impossivel para concretizar a vontade perene de estarem juntos. Talvez aquilo explicasse o porque de mesmo por vezes diferentes, se completarem de uma forma tão intensa.
Ela o amava. Completamente e imensamente, e sabia que ele a amava também, E isso por si só já lhe bastava, por isso sempre se sentia agraciada em ter muito mais. Eles faziam planos e visualizavam um futuro juntos. E ainda amam. Ainda fazem. Ainda vêem. Ainda se sentem completos, ainda se sentem necessários, ainda e cada vez mais se apaixonam todo dia.Por vezes se acreditava romântica, e em algum lugar do passado isso a incomodaria; mas afinal, os tempos mudam.
No fim do dia sempre retornava as mesmas perguntas e as respostas acabavam por ser sempre as mesmas, "não sei, mas que bom que está aqui e ainda bem que não vai embora".

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Sweet Dreams

Que seus sonhos sejam doces. Doces. Do-ces. Não, não se conformava. Ora, mas porque doces? O que de doce tem que ter um sonho? Ninguém lhe deseja "uma doce vida", mas sim uma doce efemeridade. Uma doce descarga de impulsos elétricos aleatórios que se combinam formando imagens que podem ou não ter significado. Com o perdão de Freud, que não interferirá nos meus prospectos. Ou ainda com o aval de Freud, porque não? Uma doce realização de seus desejos recalcados infantis, que a vinda de seus maiores segredos à consciência lhe seja aprazível. Não, não fazia sentido. Era como dizer que a sutileza da vida se encontra em um mundo paralelo a real existência, mas porque? Porque se deseja um "bom dia" e um "doce sonho"? Em que lhe dizia respeito algo doce era mais interessante e agradável do que algo somente "bom", na verdade bom sempre soou com uma forma educada de se dizer "regular".
Ou será que o sentido daquilo tudo era desejar que em sonhos se encontrasse o que não se acha acordado? Será que estão tão desacreditados da vida, que não acreditam mais que essa possa ser doce? Um bando de tolos, concluiu, a vida é doce, mesmo em seus pedacinhos amargos. Não acreditava que isso fizesse sentido, e na verdade não se importava. Passou a desejar a todos uma "boa noite sono" e uma "doce existência".