segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Oxímoro


Era um dia cinza e frio, avulso naquele verão tão marcado pelo calor sufocante e céu límpido... A brisa morna cedeu lugar há um doce sopro gelado, que percorreu toda sua espinha, provocando um arrepio que caracterizou um enorme alívio. Não era só o calor que a vinha sufocando, mas aquela manhã gélida e triste trouxe consigo uma calmaria esquecida em algum lugar do passado. A atmosfera melancólica chegava a exalar poesia.
O tempo parecia passar mais devagar naquela manhã de 25 de janeiro, e uma onda de conformidade tomou seu corpo. Talvez não fosse tão impossível afinal, de repente por um descuido do acaso os sonhos se tornariam tão realizáveis que as possibilidades de fracasso não passariam de números, números e mais números. E afinal de contas, não é que ela sentia um desprezo secreto por números? E decidiu que assim que deveria ser, riria das impossibilidades, ignoraria os apelos negativos e se agarraria a toda e qualquer chance de sucesso. O fracasso era um número, era matemática e ela nunca ligou tanto assim para matemática.
Preferia crer que a impossibilidade era uma simples questão de sufixo, fácil de ser consertada. Aquela onda de animação inoportuna a fez sonhar, e sonhar era seu passatempo preferido, ainda mais se acordada. E ela decidiu não se levantar, queria aproveitar aquele sopro de inverno no meio do verão, tão improvável quanto aqueles devaneios malucos pensados e repensados noites a fora.

                             Carolina Ribas

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Solitude

A solidão é poética. É incrivelmente irrestrita: doce, ácida, amarga, triste, sonora. Nela por vezes uma pessoa se encontra; no mais profundo silêncio angustiante, pode-se dizer mais do que tudo que outrora não foi dito; pode-se encontrar conforto mesmo se sentindo desamparado. A solidão é paradoxal, é persuasora.
Musa de sonetos, algoz de milhares, tão abstrata quanto sentida. Sente-se só ainda que rodeado por pessoas; a solidão é inoportuna e incompreensível.
É vasta e viver sua plenitude pode ser devastador, é lugar de veraneio e beco sem saída. A solidão é aquela que se faz presente, que leva aos extremos, da qual todos tentam fugir, muitas vezes sem necessidade. A solidão é incerta,costuma ser associada a dor. Mas dela pode-se tirar proveito, afinal como se conhecer sem estar só? Livre de qualquer influência e refletindo nada que não se próprio? Essa reclusa, esse conhecimento próprio,um momento para si, julgo importante. Já ouvi chamarem isso de solitude, palavra graciosa, apesar de soar algo como estranhamento. Adequado.

                Carolina Ribas, discorrendo sobre o abstrato